quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Impressões dia 5/10/08

Gostaríamos de agradecer aos nossos amigos que elegeram o POLEM sua diversão de domingo! Seja para comemorar esta festa da democracia ou pra se curar de políticos que são um porre, nos reunimos para beber poesia no Sindicato do Chopp.



Cada amigo deu sua contribuição. Mamma Giuly seduziu com poemas sobre beijo. Diogo Vacin (O Poeta Ligeiro), além de poemas próprios, incluindo um sobre amor, recitou junto com sua amiga vários poemas de Elisa Lucinda. Marcelo leu “adolescente”, do Mário Quintana, e também um poema do novo livro da poetisa Laura Esteves, “50 Poemas escolhidos pelo autor”, das Edições Galo Branco. Gutman mais uma vez fez sucesso com suas frases curtas e leu uma homenagem ao garçom. Ele veio acompanhado do músico João João, que prometeu algum dia levar sua sogra, musa da canção “Minha sogra é legal”, para conhecer o nosso sarau. Ovídio disse muitos de seus repentes, com destaque para um poema feito sobre marcas de cigarro. Louis Alien mostrou, entre outros, um poema que fez inspirado no documentário sobre Vinícius. E, como a chuva, nos impediu de apresentar o CD de Fernando Pessoa, Eduardo leu alguns poemas do mesmo. Inspirados por ele, a amiga de Diogo disse de cor um poema de Alberto Caieiro e eu recitei “Autopsicografia”



Aconteceram muitas outras coisas que não posso escrever neste espaço. Não por qualquer impedimento moral ou ético; mas pura e simplesmente porque, como diz meu professor de guitarra, eu tenho uma “memória de formiga”. Por fim, vamos mais uma vez agradecer aos nossos “eleitores” e dizer que continuamos, com muito prazer, a tarefa de fazer dos domingos de cada um de nós um dia mais poético e divertido.


II - O Meu Olhar
Alberto Caeiro

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

O Adolescente

Mário Quintana

A vida é tão bela que chega a dar medo
Não o medo que paralisa e gela,
estátua súbita,
mas
esse medo fascinante e fremente de curiosidade que faz
o jovem felino seguir para a frente farejando o vento
ao sair, pela primeira vez da gruta,
Medo que ofusca: luz
Cumplicemente as folhas contam-te um segredo
velho como o mundo
Adolescente, olha ! a vida é nova
A vida é nova e anda nua
vestida apenas com o teu desejo !


Quanto Mais Vela Mais Acesa

Elisa Lucinda

Um dia quando eu não menstruar mais
vou ter saudade desse bicho sangrador mensal
que inda sou
que mata os homens de mistério

Vou ter saudade desse lindo aparente impropério
desse império de gerações absorvidas

Desse desperdício de vidas
que me escorre agora mês de maio.

Ensaio:

Nesse dia vou querer a vida
com pressa
menos intervalo entre uma frase e outra
menos respiração entre um fato e outro
menos intervalos entre um impulso e outro
menos lacunas entre a ação e sua causa
e se Deus não entender, rezarei:

Menos pausa, meu Deus
menos pausa.


Transgressão

Laura Esteves

Quando escrevo,
Caem todas as barreiras.
Tudo me é permitido.
Desobedeço. Violo. Infrinjo.
Não consigo falar de flores,
Pássaros, encontros, amores.
Coisas singelas que, sem elas,
Eu sei, a vida seria sem graça.
Mas, o que querem que eu faça?

Nada de regras!
Falo dos deserdados,
De mulheres massacradas,
Pivetes e desgraçados.
Falo da mentira, inveja, traição.
Vou fundo, endemoniada.
Tal qual o mal feito gente,
Cravo o punhal, não nos outros,
Mas em meu próprio coração.

E vocês ainda não viram nada!



Louis Alien

O que se pode aprender
Com a ignorância?

Quando se aprende
O que é real por dentro?

Quando se vence o medo,
E se permite amar completamente
Sem
receio
de
perder
tudo?


Tudo que eu quero esta noite

O Poeta Ligeiro

Tudo que eu quero esta noite
É um doce e perfeito destino
Uma orquestra tocando Bach
Som de flauta e de violino

Que seja azedo e que seja prazer
Em um mundo perfeito e insano
Que não seja pecado querer
Meu desejo infrator e profano

Que a espada da lei não se atreva
A castrar meu fantástico amor
Tudo que eu quero esta noite
É um pouco mais de não sentir dor

Um comentário:

Gílio disse...

Seus comentários fazem-me tera vontade, que ainda não realizei de ir até o Leme , num domingo e, até, ali, ler um soneto meu. Pergunto: - quando eu for posso levar um livro para ser sorteado entre os presentes? Meu abraço, Manoel Virgílio