terça-feira, 29 de julho de 2008

Impressões dia 27/07/08

Este domingo teve um sabor especial: foi aniversário da Mamma Giuly! A festa da italiana mais querida do Brasil rendeu homenagens de vários representantes do movimento poético carioca, a ponto de Eduardo Tornaghi dizer que, “mesmo sem Dercy, ainda existe a Mamma Giuly para alegrar nosso país” e de Marcelo Mourão, confessando sua ascendência calabresa, fazer uma apaixonada leitura do Soneto do Desejo dedicando o poema a Mamma Giuly. Alguns poetas fizeram novas versões de seus versos para homenagear a aniversariante, como Louis Alien fez com o fantástico 120 Decibéis. A pedido da mamma, Cairo Trindade recitou Caso perdido, que ganhou o apelido carinhoso de “poema do pentelho”. E Mary Jane, encantando a todos com seu canto, fez um belíssimo dueto de música italiana com a aniversariante, que ainda nos brindou com uma versão em japonês da Garota de Ipanema.



(Grupo Poesia no Leme e Mamma Giuly)



Como se não bastasse toda a alegria proporcionada por esta festa, ainda houve a homenagem a Eduardo Tornaghi Foram recitados vários de seus poemas, como Wit, Hedonismo, Currículo (todos presentes nos nossos marcadores de livro!) e as “Trovas para um grande amor”. Num momento familiar, Eduardo e suas filhas recitaram em conjunto o poema “Boneco”, de Newton Tornaghi, pai do nosso homenageado. A filha mais nova de Eduardo, Bibi, recitou várias vezes seu poema e estava tão elétrica que fez jus ao versos de Acalanto, que o papai coruja escreveu para ela.

(Eduardo Tornaghi, Bibi e Kalú)



Muitos outros poetas marcaram a noite. Lirozinha fez sua estréia e, mostrando desenvoltura, subiu várias vezes a nosso “palco”. Louis Alien, além dos poemas de sua autoria, recitou trechos de Hamlet. Diogo Vancin, o Poeta Ligeiro, depois da bela estréia retornou à nossa pedra. Alda Passos homenageou Mano Melo, que fez sua primeira aparição em nossa pelada poética (esperamos que seja a primeira de muitas). Ele recitou vários poemas do Trio Los Tres e seu já célebre Sexo em Moscou. E, por falar em Trio Los Três, além da presença de Antonio Gutman, tivemos também Fernando Sá, retornando de viagem pela Europa. Marla Queiroz seduziu a todos com seu poema Convite. A nossa queria Vera Sarres também deu o ar de sua graça em nosso sarau. Sérgio Gerônimo recitou Mário de Andrade e divulgou se espetáculo “Conversa Proibida”, parceria com o poeta Flávio Dórea. Elma Alegria animou a todos com seu pandeiro. Omar Marzagão apareceu no fim apenas para dar um abraço em nossa aniversariante e Bebeto Tornahgi fechou a noite fazendo uma adaptação de Irene no céu, de Manuel Bandeira, em homenagem à Mamma Giuly e recitando seu poema “Gosto de Aparecer”.


(Alguns dos poetas presentes: Marcelo Mourão, Vera Sarres, Mary Jane, Cairo e Denisiz Trindade, Elma Alegria)


Falando em Manuel Bandeira, o convidado de nosso domingo, ele foi lembrado através de vários poemas como Auto-retrato e Antologia. Houve também uma prévia da homenagem a Denizis Trindade, com alguns poemas de seu livro “New Book New Look”.

Eduardo Tornaghi

Acalanto (para Bibi)

Aprendi com minha filha
O mais importante que existe
Criança é uma espécie de pilha
Sono é uma espécie de triste

Ciranda (para Kalú)

Quem pula é a ponta do pé
Quem pousa é a palma da mão
Quem pausa é o dentro da testa
Quem pulsa é só coração

Currículo

já soquei tijolo já virei concreto
já comi do bom já pastei sem teto
já passei vazio já sonhei repleto
só me falta chorar pra ser completo

já banquei o bobo me pensando esperto
já fechei a porta e ainda restei aberto
já comprei a banca - já fui objeto
só me falta chorar pra ser completo

já plantei a dor achando ser correto
já tive razão mesmo sem estar certo
já me fiz sublime - já fui abjeto

já clamei por voz no pleno deserto
já me atrapalhei com tudo que é afeto
só me falta chorar pra ser completo


Marla Queiroz

Convite

Deita tua voz em meus ouvidos ferindo a castidade que me faz dormir tão cedo.
Preciso das pontas dos teus dedos para que a insônia crave em mim as suas unhas
e eu te guarde, enluarado, entre os meus segredos.

Desenrola teu desejo sobre a minha pele nua para que a minha boca beba na tua,
esse hálito de flor.
E provoque uma súbita troca de posições
onde meus cachos pendam frouxos sobre o teu rubor.

(Para que eu me despeça da maldade do querer entardecido de ausências
deita tua fome em nossas pendências).

E deixa que o dia brote do horizonte como se fosse do mais íntimo da gente:
adormeceremos ensolarados e castos
feito um poente.


Louis Alien

120 Decibéis

Esse silêncio
de 120 Decibéis
Atravessa
meus tímpanos
estraçalha
meus miolos
dissolve minha calma
dissolve minha calma
dissolve
minha alma
Não ouvir tua voz

Cairo Trindade

Caso Perdido

Tem um pentelho no meio da minha cama.
No meio da minha cama tem um pentelho.
Tem uma mancha de porra no meio do lençol,
teu cehiro em meu travesseiro
e um resto do gosto de teu corpo em minha boca.

Mas o que bate e me enlouquece e devasta
é esse pentelho no lençol vermelho, encravado,
no meio da mancha. Era teu, não é mais.
Nunca mais será teu. A partir de agora,
faz parte de mim e da minha história.

Tem um pentelho no meio da minha cama.
No meio da minha cama tem um pentelho
que vai ficar para sempre, ainda que eu queime os lençóis,
que torque de cama, se passem os anos
e eu mude de estado, dimensão ou plano.


Manuel Bandeira

Os sapos

Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.

Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
— "Meu pai foi à guerra!"
— "Não foi!" — "Foi!" — "Não foi!".

O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: — "Meu cancioneiro
É bem martelado.

Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos!

O meu verso é bom
Frumento sem joio
Faço rimas com
Consoantes de apoio.

Vai por cinqüenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A formas a forma.

Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas . . .

"Urra o sapo-boi:
— "Meu pai foi rei"
— "Foi!"— "Não foi!" — "Foi!" — "Não foi!

"Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro:—
"A grande arte é como
Lavor de joalheiro.

Ou bem de estatuário.
Tudo quanto é belo,
Tudo quanto é vário,
Canta no martelo.

"Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas:
— "Sei!" — "Não sabe!" — "Sabe!".

Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
A noite infinita
Verte a sombra imensa;

Lá, fugindo ao mundo,
Sem glória, sem fé,
No perau profundo
E solitário, é

Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo-cururu
Da beira do rio

Irene no céu

Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.

Imagino Irene entrando no céu:
— Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
— Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.


Auto-retrato

Provinciano que nunca soube
Escolher bem uma gravata;
Pernambucano a quem repugna
A faca do pernambucano;
Poeta ruim que na arte da prosa
Envelheceu na infância da arte,
E até mesmo escrevendo crônicas
Ficou cronista de província;
Arquiteto falhado, músico
Falhado (engoliu um dia
Um piano, mas o teclado
Ficou de fora); sem família,
Religião ou filosofia;
Mal tendo a inquietação de espírito
Que vem do sobrenatural,
E em matéria de profissão
Um tísico profissional.


Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que eu nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Um comentário:

poesia e biodanza disse...

adorei tudo o que vi e li. valeu. parabéns ao pessoal do polem.