quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

"Não se trata do poema e sim do homem e sua VIDA..."

- a mentida, a ferida, a consentida
vida já ganha e já perdida e ganha
outra vez.
Não se trata do poema e sim da fome
de vida,
o sôfrego pulsar entre constelações
e embrulhos, entre engulhos.
Alguns viajam, vão
a Nova York, a Santiago
do Chile. Outros ficam
mesmo na Rua da Alfândega, detrás
de balcões e de guichês.
Todos te buscam, facho
de vida, escuro e claro,
que é mais que a água na grama
que o banho no mar, que o beijo
na boca, mais
que a paixão na cama.
Todos te buscam e só alguns te acham. Alguns
te acham e te perdem.
Outros te acham e não te reconhecem
e há os que se perdem por te achar,
ó desatino
ó verdade, ó fome
de vida!
O amor é difícil
mas pode luzir em qualquer ponto da cidade.
E estamos na cidade
sob as nuvens e entre as águas azuis.
A cidade. Vista do alto
ela é fabril e imaginária, se entrega inteira
como se estivesse pronta.
Vista do alto,
com seus bairros e ruas e avenidas, a cidade
é o refúgio do homem, pertence a todos e a ninguém.
Mas vista
de perto,
revela o seu túrbido presente, sua
carnadura de pânico: as
pessoas que vão e vêm
que entram e saem, que passam
sem rir, sem falar, entre apitos e gases. Ah, o escuro
sangue urbano
movido a juros.
São pessoas que passam sem falar
e estão cheias de vozes
e ruínas . És Antônio?
És Francisco? És Mariana?
Onde escondeste o verde
clarão dos dias? Onde
escondeste a vida
que em teu olhar se apaga mal se acende?
E passamos
carregados de flores sufocadas.
Mas, dentro, no coração,
eu sei,
a vida bate. Subterraneamente,
a vida bate.

Em Caracas, no Harlem, em Nova Delhi,
sob as penas da lei,
em teu pulso,
a vida bate.
E é essa clandestina esperança
misturada ao sal do mar
que me sustenta
esta tarde
debruçado à janela de meu quarto em Ipanema
na América Latina.

A Vida Bate - Ferreira Gullar




quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Interpretar

"Pinto a cara com a tinta mais brilhante
para esconder minhas muitas sombras.
Uso uma roupa bem espalhafatosa
pra me proteger do medo e da solidão.
E torço pra que este nariz vermelho
tão redondo e engraçado
faça o público perdoar minha feiura.

Se faço contorcionismos impossíveis,
se me sujo, tropeço, escorrego
ou bato em mim mesmo com um martelo de brinquedo,
não é apenas para fazer rir.
É pra acalmar dores muito antigas.
Pois só no picadeiro eu sei fingir
que não sou covarde demais para os saltos dos trapezistas
ou que não sou um parasita
sugando gargalhadas pra se manter de pé.

E espero que em algum momento
entre o aplauso e o fechar das cortinas,
eu consiga ser feliz."

 Um dia o circo acaba - José Calazans

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Um "dedim"de prosa...

O Azar
Sou uma pessoa bem descrente. Por exemplo, não acredito em feitiço, urucubaca, sorte, azar, essas paradas. Mas devo reconhecer que em alguns períodos da vida parece que algo “lá em cima” (ou lá embaixo) conspira contra você.

Causa, motivo, razão ou circunstância ( relembrando nosso saudoso Professor Girafales) não há. Você é um cara bacana, boa-pinta, honesto, certinho, bom contribuinte, vê novela e, "Puta-que-o-pariu!” A bateria do carro arriou porque você esqueceu a merda da lanterna ligada. Ah, Beleza! Nada que uma "chupetinha" não resolva até chegar em casa.

Como você é um sujeito que não deixa nada pra depois, resolve comprar uma bateria logo e,"Putz!" fraudaram sua conta e você deve 10 mil reais ao banco que ainda por cima desconfia da sua idoneidade.
"Ok"! Família serve pra isso. Ah! Meu irmão, se você não tivesse "furado o olho” daquele teu primo play-boyzão, ele até que te arrumaria unzinho, né? "Arrombado, vagabundo!”

Já que seu carro (lotado de figas, pé-de-coelho, escapulários e santos) não sai do lugar você recorre ao nosso inigualável Sistema de Transporte Público para chegar àquela reunião super, hiper, megaimportante agendada há dois meses com o diretor da empresa. Humm... Adivinha só? Greve dos Rodoviários. Mas, poxa, se você tem uma namorada bacana ela não vai te deixar na mão, né? “Ok, querido. Empresto sim. Mas quando voltar reserva um tempinho pra gente conversar, tá?”... "Cacete! DR não!”

Não sabendo onde enfiar esta sua cara de "topógrafo sem azimute" a reunião começa e você chega de fininho, “na tranqüilidade” pra não chamar atenção. A pauta é sobre uns investimentos de uns "chinas" aí... "Eita! A porra da proposta!" É, bicho. Aquela que serviu de calço pra sua escrivaninha, ela mesmo.

Com a mesma cara que chegou seu chefe te propõe um descanso, umas férias tipo, sem data para retornar. "Pior não pode ficar!". Nunca diga isso, meu chapa! É Lei de Murphy na certa.
Assim, você deixa o prédio e constata que o carro da sua namorada foi rebocado por estacionar em local indevido. Não sabia? Azar o seu. Resta apenas esse dia terminar com bela gargalhada desesperada de um doido no seu mais alto nível de stress.

"Deus! Por que eu? Por que comigo? "
"Ah, meu filho! Você está vivo e gripe não dá em poste, né?" 

nathalia colombo